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Deram o nome de Kantuta, que é uma flor, verde, amarela e vermelha. Pegaram o símbolo pátria da Bolívia.

A cena se repete todos os domingos, mas está longe de ser apenas uma feira. Ao som de músicas andinas que se misturam com o barulho de conversas, panelas e passos de dança, a cultura boliviana ganha forma em cores, sabores e práticas cotidianas que resistem ao tempo e às mudanças da metrópole.

 

Luiz Chilman, tesoureiro da feira

FEIRA
MERGULHANDO
NA CULTURA BOLIVIANA

Entre tons de verde, amarelo e vermelho, a Feira Kantuta, parece, por algumas horas, atravessar fronteiras.

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O ambiente reúne cultura, memória e identidade para a comunidade boliviana que vive na capital paulista.

Era uma vez...
um território cultural

A Feira Kantuta começou a se organizar no fim dos anos 1990 e se consolidou no início dos anos 2000, quando o espaço passou a ser ocupado por imigrantes.

 

Ela se tornou uma das referências da cultura boliviana dentro de São Paulo, que atualmente concentra cerca de 350 mil bolivianos vivendo na cidade, segundo o Consulado da Bolívia.

Kantuta como fonte de resistência

Para além das cores vibrantes e dos trajes tradicionais, a ação cultural exige uma engenharia invisível aos olhos dos visitantes.

 

Quem faz a feira existir semanalmente são personagens que equilibram o papel de guardiões culturais com o de gestores de um território, até então, autossuficiente.

Mapa da cidade
de São Paulo

Chilman descreve a feira como um organismo independente que não conta com verbas públicas.

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"A prefeitura não apoia nada", afirmou.

A invisibilidade da Kantuta se manifesta também na forma como a comunidade precisa gerir as vulnerabilidades sociais presentes no entorno. Dentro de um cenário em que a praça é ocupada pela população em situação de rua, a feira estabeleceu uma dinâmica própria de convivência e dignidade. 

Tem morador de rua que dorme aqui na praça e a gente dá serviço pra ele fazer a limpeza. Eles ajudam a gente a montar as barracas.

Entrevista completa de Luiz Chilman

A reportagem entrou em contato com a Subprefeitura da Mooca, responsável pela gestão do bairro, que alegou realizar serviços de varrição entre 13h40 às 22h, de segunda-feira a sábado.

Além disso, os feirantes pagam uma taxa semanal para cobrir custos que deveriam ser municipais, como limpeza e segurança. “A gente tem que pagar o relógio de luz, segurança, limpeza, temos que pagar tudo”, explica o organizador.

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Apesar de ser um polo de cultura milenar, a relação com o poder público é descrita como negligente, principalmente em relação à segurança. Chilman é enfático ao dizer que a polícia raramente aparece para proteger o evento.
 

Eles dizem que se vierem aqui, atrapalham. Então a gente tem que ter a nossa própria segurança.”

Sem o auxílio devido do Estado, a associação precisa negociar sozinha com outras organizações sociais do Canindé para garantir o bem-estar dos visitantes.

Entre o ser e o existir

Na Kantuta, a cultura é vivida, seja nos alimentos preparados, nos objetos expostos ou nas expressões artísticas que ocupam o espaço.

Gerardo Arispe Saaverda 
Visitante da feira

E a gastronomia é uma das principais portas de entrada para a experiência. 

Além das barracas locais, ingredientes como milho, batata e pimentas aparecem em diferentes formas, muitas vezes desidratados para facilitar o transporte e o armazenamento.

Filha de uma das fundadoras da feira, Maritza Judith Quispe Yujra, que trabalha no local há cerca de 20 anos, cresceu nesse ambiente e hoje mantém a banca da família.

“Comecei ajudando a minha mãe. Ela nunca quis trabalhar para os outros, sempre quis ter o próprio negócio. Foi assim que trouxe os produtos e ajudou a construir a feira”, explica.

Maritza ainda relata que a feira é um espaço de autonomia que venceu o destino comum da costura, mas relembra como a pandemia quase extinguiu o local devido ao rigor das normas municipais.

A gente ficou mais de seis meses sem trabalhar. É uma feira que só funciona aos domingos. Quando voltamos, havia menos de 30 barracas. Antes eram cerca de 80.

Apesar do sentimento de totalidade da feirante e de tantos outros, Chilman considera que muitos bolivianos ainda sofrem, o que o tesoureiro define como algo cultural e estrutural.

 

Ele observa que o brasileiro ainda enxerga o boliviano por meio de lentes limitadas, ignorando as camadas de uma identidade que resiste ao apagamento.

“O brasileiro tem um preconceito contra o boliviano. É uma coisa cultural”,

analisa o tesoureiro. 

Para Graziela Ticona, que trabalha na feira há mais de seis anos, o local é o refúgio em que  e a identidade se fortalece pelo paladar.

 Eu vim, voltei para a Bolívia, mas não me acostumei. Me encontrei aqui e fiquei. A gente mata a saudade aqui”, conclui, ao demonstrar uma zampoña, a flauta que sopra o som de seu país de origem.

Além da música, as vestimentas e os acessórios carregam significados que vão além da estética. Para Leide Gabriele, uma das organizadoras do grupo cultural Kantuta Brasil, os elementos visuais e figurinos também demonstram parte da cultura do país.

 “Os chapéus, os suéteres, tudo isso tem um significado. É uma forma de representar identidade, até de transmitir uma ideia de paz”, comenta.

“Se você entrevistar um grupo, é uma história. Outro grupo é outra cultura”, explica Chilman. Para ele, a presença constante das manifestações culturais é um dos principais diferenciais da comunidade boliviana. 

 

“O folclore boliviano é 24 horas. Tudo pra eles é cultura”, finaliza.

Entrevistas completas

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